O fazer cinematográfico sempre gerou discussões artístico/sociais construtivas, e o ser humano, comumente, possui a necessidade de estar ao redor de algumas agitações expressivas para continuar seguindo em sua existência medíocre ou não. Entretanto, proponho articular aqui debates sobre esta arte tão intrisecamente fenomenal. Utilizem-se desta liberdade que dimensiono-lhes, e desfrutemos dos combates a serem executados.
Postagem em destaque
1964: O Brasil Entre Armas e Livros (2019)
Documentário revisionista que busca impor uma narrativa histórica própria que deslegitime a vasta bibliografia sobre o tema, consid...
segunda-feira, 17 de março de 2014
Bang Bang, 1971. de Andrea Tonacci.
Bang Bang. Cinema Marginal. Um filme que viria a preconizar um combate às convenções culturais ortodoxas sejam elas políticas ou estéticas, uma severa crítica ao institucionalismo e a histeria social da classe média, assim como a apreciação a liberdade sexual, a contestação artística em busca de uma liberdade total da forma.
Apesar de que o filme possa ser caracteristicamente analisado como desconstrutivo, o longa viria a possuir um forte aspecto formal em sua filtragem, com planos-sequências bem estruturados diante de uma excelente fotografia que extrai ao máximo as ambientações sejam elas internas ou externas e a não, ou pouquíssima, utilização da “câmera na mão”. Tonacci preconiza exatamente este aspecto formal para desestruturar a narrativa em uma miscelânea dicotômica entre o formalismo estético e o radicalismo de conteúdo.
O filme trata da história de uma pequena quadrilha de excluídos e seu convívio nada convencional é mostrado de maneira ainda menos usual e improvisada. Exatamente porque uma das forças motrizes de Bang Bang é a construção do próprio método durante o filme em uma maior preocupação com o processo do que com o produto.
O tom irreverente de avacalhação é explicitado de maneira constante de várias formas dentro de sua duração, como por exemplo, a conversa inicial (extraordinária) no táxi, que é hilariante pelo deboche e intrigante pelo aspecto metacinematográfico crítico envolvido, que a meu ver, traz uma característica possibilidade metafórica. Esta seria a de que o taxista representaria a indústria cinematográfica brasileira geral, que não conseguiria compreender e, principalmente, aceitar toda uma gama de características do passageiro, representante análogo do próprio cinema marginal, que procura pôr em prática sua vontade intrínseca de existir e não se preocupa com amarras sociais e estéticas.
Alguns momentos a serem refletidos, também, são aqueles nos quais as câmeras aparecem propositalmente numa brincadeira de Tonacci com a própria linguagem como na cena em que Paulo Cesar Pereio se barbeia com a máscara de um macaco, e vira-se olhando para a câmera. Percebo aqui uma noção do diretor em expor seu modus operandi em uma espécie de diálogo representativo com o espectador. E creio que Tonacci se aproveitara desta oportunidade para mostrar mais uma de suas facetas metodológicas de caráter rebuscado e combativo à algumas formas de estética vigentes no cinema brasileiro do período. Uma edição feita por mim agora anos depois. A quebra da quarta parede de Tonacci - eu havia esquecido esta denominação. Uma das mais belas já filmadas. O que ela representa: "Sou um escroto e daí? Este país também o é."
A sonoridade transmitida seria de uma total consciência do diretor para causar uma profusão sintomática de sons com a intencionalidade de causar uma confusão no espectador, a meu ver, em uma analogia ao cinema brasileiro geral e à política do país. A trilha sonora irreverente traz um tom de organicidade paradoxal com as imagens no que tange a esta confusão que eu já citei. Percebemos uma conjuntura de imagens e sons que a princípio parecem desconexos, mas, propõe-se (acidentalmente? Duvido) a ser um mosaico sócio-cultural representativo do país.
Diante da queda das ilusões frente a truculência rechaçatória por parte do governo federal diante do cinema, Bang Bang demonstra sua face escrachada frente às adversidades encontradas e, além disso, acredito que toda a exacerbação da quebra de paradigmas estéticos possa soar também como uma brincadeira em forma de uma confusão que viria a metaforizar o período político e suas violentas nuances tendo na população brasileira a carga sintomática desta confusão.
Os personagens. Desde sua explosão a vertente marginal já demonstrava seus personagens como seres marginalizados como em Bandido da Luz Vermelha, Matou a Família e foi ao Cinema, além do próprio Bang Bang. A dualidade artística clássica entre bem e mal é metamorfoseada como uma espécie de conjunto estrutural de personagens marginalizados. Em vista: um pistoleiro cego, um travesti e outras figuras estranhas à (e excluídas de) nossa sociedade de outrora, e que no caso do travesti, o diretor mostra audácia ao retratá-lo, diante de todos os intensos preconceitos sexuais que isto poderia acarretar. Mas era isso que Tonacci queria... O choque. Atitudes que agiam como uma força de expressão que buscava exatamente a liberdade criativa, sem se preocupar totalmente com o aspecto mercadológico do cinema (porém paradoxalmente querendo ser visto).
Por fim Pereio (em estupenda personificação). Tonificar seu personagem, que perpassa o filme inteiro em caminhadas e canções, significaria demontrar que em ambos os momentos ele está sozinho, o que simboliza a solidão do ser marginal. Dar voz a estas criações é uma intenção chave para o diretor diante de sua ideologia rebelde a procura de uma transformação inacabável.
Nota 10
Tonacci. Dane-se. Cinema.
Por Ted Rafael Araujo Nogueira
Elysium - 2013
Elysium. Novo filme do sul-africano Neil Bloomkemp, que novamente envereda pela ficção científica e seus percalços distópicos após seu brilhante filme de estréia Distrito 9. Onde a comparação com este último é óbvia por demais para ser descartada ainda que pela expectativa criada pela tamanha qualidade de Distrito 9. Porém Elysium consegue sobreviver sozinho.
O filme trata da história de Max (Matt Damon) que ao sofrer um acidente químico onde trabalha, lhes é dado o prognóstico de 5 dias de vida. A partir disso ele se envolve com Spider (um traficante de seres humanos) que o contrata para um serviço de risco para, assim, ir a Elysium, local onde vivem as altas castas sociais que abandonaram a Terra e a usam como curral trabalhístico onde exploram-se os mais diversos trabalhadores, que na Terra ficaram, e que buscam desesperadamente sobreviver. Em Elysium não é permitida a entrada de pessoas de castas inferiores, onde entra a questão do tráfico humano e é em Elysium que se possui a tecnologia médica viria a possibilitar a cura das mazelas físicas de Max. Mas o que ele descobre pode ser a chave para o fim da dicotomia social grave existente.
Roteiro do próprio diretor visa menos o debate dicotômico de castas sociais e mais a resolução maniqueísta da trama. Porém quando se propõe a debater a tal dicotomia principal (sim, existem várias) o faz de maneira seca e concisa. Buscando sempre expor conflitos étnicos imbuídos de relevância diante da drástica situação em que estas várias etnias se encontram, onde até o uso de um elenco tão cosmopolita culturalmente denota as intenções deste filme. Mostrando que não só de americanos é feito o cinema e o próprio EUA, analogia nada delicada, marca do diretor.
Neil Bloomkemp realmente não é um cara de sutilezas. Longe disso. Trata de maneira dura (na maior parte do tempo bastante satisfatória) as questões da luta de castas onde um ponto interessante é ressaltado: a questão idiomática. Questão esta que divide de forma dual diante das castas, onde na Terra se fala Inglês (universal), mas também há a dura presença de idiomas outros como espanhol e português. Aqui numa alusão aos questionamentos acerca da problemática da questão da imigração de estrangeiros ilegais nos Estados Unidos, que, grosso modo, se saem as castas mais abastadas sobraria uma enorme parte dos imigrantes no país (assim como a questão nada sutil do Aparthied mostrado no distrito 9). Em Elysium (propriamente dita) a sujeira é trocada pelo visual clean e pela utilização do francês somado com o inglês como idiomas existentes pertencentes a classe rica americana e européia que possuíam um controle estratégico radical e total de todos os recursos existentes, onde as instâncias controladoras dos códigos morais, éticos e jurídicos tornaram-se mais excludentes e cínicos. A visualização de tudo na própria ilha espacial Elysium é tratado paradoxalmente quanto à Terra, onde Elysium realmente metaforiza o paraíso a ser alcançado pelos terráqueos em agonia.
Desses elementos acerca da questão de paraísos e infernos somos banhados por outra dicotomia pesada entre bem e mal grega na representatividade simbólica e análoga dos Campos Elísios e o Tártaro, na clássica alusão entre céu e inferno aqui devidamente bem contextualizada. Onde os detentores do poder em Elysium deixavam seus indesejáveis na Terra. A Terra seria a significação do Tártaro onde ficavam os Deuses banidos vigiados por Hades, Deus do submundo. No filme há um regulador trabalhista análogo à Hades. Um chefe controlador direto das almas que seria John Carlyle (William Fichtner) dono da empresa de tecnologia robótica Armadyne responsável por grande parte da tecnologia de Elysium, e que tem uma estreita relação com Delacourt (Jodie Foster) a grande poderosa de Elysium. Onde as relações hierárquicas dependiam de todas estas divisões de controle absurdas e fomentavam o crescimento cada vez maior de buscas por poderes mais absolutos ainda. Esta é uma analogia interessantíssima levada a cabo por Bloomkemp e esta é explicitada de maneira satisfatória.
Interessante o tratamento às castas inferiores no que acrescenta-se em relação às suas condições de trabalho, que, de certa forma, retornam quase aos tempos de revolução industrial. Como se uma nova revolução tecnológica tivesse transformado implacavelmente a sociedade, onde muitas das mais diversas e divergentes condições de sobrevivência, diante da exploração trabalhista, viessem a assemelhar-se a outras de 150 anos atrás numa espécie de eterno retorno nietzschiano em que as alternâncias de situações nunca findariam e sempre mostrar-se-iam pertinentemente repetentes (eixo teórico crítico transposto por Neil), aqui comento a nível metafórico, que o diretor se refere, e faço um comentário acerca de alguns elementos, apenas, desta dicotomia, sempre atento a anacronismos errôneos de comparações de totalidade. Interpretação parcial dos acontecimentos e não total. Isso mesmo em alguns de seus pormenores, como o distanciamento social e físico cada vez maior entre patrão e empregado por exemplo.
A grosseria dentro de um sujeira caracterizada por Bloomkemp cria um clima doentio e formidável onde suas temáticas violentas mostram-se extremamente salutares, como já acontecera em seu filme anterior. A capacidade desse diretor para a disparidade nas relações é tangível e propositadamente grosseira. Distanciada. Nada sutil mesmo. Com direito a até um nojo físico por parte do moradores da própria Elysium, como se estivessem lidando com leprosos. A direção visa a construção de uma ambiência sempre dando a visão de seus personagens, desnudando e não enaltecendo seus extremamente competentes efeitos visuais onde o deslumbre é pelo contexto físico e social. Pode parecer dialético isso, porque o longa se destina demais às grandes cenas de ação, mas com a mesma sujeira e falta de glamour deste universo, mas, realmente é a contextualização distópica metafórica um dos grandes lances do filme. Porém as tais cenas de ação são extremamente bem executadas onde a montagem juntamente com a fotografia presta um excelente papel na inteligibilidade das mesmas. Entende-se tudo o que vê, raro nas mais diversas montagens de grandes filmes de ação.
Elysium peca em alguns momentos exatamente por se propor a parte da ação contínua onde seus conflitos internos e diversas analogias são pouco explorados (excelentes sim, mas não possuem tanto tempo em tela quanto deveriam).Tudo isso sem esquecer de mencionar o drama envolvendo o seu par romântico esperançoso em Alice Braga, que simplesmente soa desnecessário. Um roteiro mais bem acabado teria sido de enorme valia para uma maior apreciação do filme que fica aquém de seu próprio e grandioso potencial. Dicotomia e maniqueísmo. Explicitei bastante estas palavras, onde se realmente gira nessa atmosfera grosseira e pouco explorada, onde muitas das diversas dualidades permanecem não-aprofundadas. Por isso minha insistente repetição nas palavras, que fica clara a opção política direta de Neil.
Warner Moura brilha hiperativamente como o líder rebelde escroto Spider em um personagem tridimensional, extremamente humano, e, principalmente, sacana pra cacete. Sharlto Copley brinda o filme como um dos grandes vilões do ano em toda a sua psicopatia e cinismo, compondo a melhor atuação do longa, mesmo com um personagem não tão complexo, beirando o unidimensional. Matt Damon faz dele o que se espera como protagonista levando a narrativa adiante sem firulas em atuação correta apenas. O resto do elenco atua sem contra-indicações e Jodie Foster atua simplesmente no automático em personagem de grande importância e nada explorada.
Na parte técnica o filme da um banho em todos os quesitos, desde montagem/fotografia à efeitos especiais e sonoros, sempre seguindo a cartilha da bela sujeirada exigida pela atmosfera característica criada por Bloomkemp. Ótima trilha sonora adentrado de maneira correta e sem exageros. Forte e bem composta.
Mas não sai-se muito disso. A crueza temática do diretor merecia um tratamento mais denso a algumas questões, porém um filme de um orçamento mais parrudo talvez não desse espaço para tratamentos mais acabados, e nem por isso deixei-los-ei sem críticas. Pra não me estender mais termino explicitando que Elysium é um bom filme sim, e podemos vê-lo não com a cabeça no Distrito 9 (apesar das já citadas óbvias comparações). Distrito 9 primou tanto por 2 grandes personagens, contextualização de ambiente, criticidade política e social, parte técnica impecável, belíssimo trabalho de direção e um grande roteiro. Essa é a diferença para Elysium que seu problema seria o fato de se encurtar em suas ótimas teorias e aspectos metafóricos a tudo que fora citado. Até as dicotomias (pela milésima vez) de sempre aqui neste cinema sendo problematizada mais em sua estrutura social e em seus pormenores geraria elementos mais positivos que considerassem o longa ainda bem mais como bom entretenimento. Mesmo com suas dificuldades aqui está um ótimo exemplar de um gênero por vezes tão destroçado, mas sempre de inomináveis proposições futuras imundas (só finalizando com um trocadilho sujo e seboso).
Nota 8
Por Ted Rafael Araujo Nogueira
domingo, 16 de março de 2014
12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, 2013)
A valorização da liberdade.
12 Anos de Escravidão. 2013. De Steve McQueen. Filme baseado em fatos reais que, provavelmente, chega pra ser um dos divisores de águas americano dos filmes sobre o tema em questão.
Trata-se da história do ex-escravo Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) que é sequestrado, vendido e posto de volta a labutar como escravo, no que viria a passar, novamente (pois já era alforriado), pelas mais diversas provações e humilhações sempre buscando, quando vê alguma oportunidade de provar, que, de fato, és livre.
Filme brilhante ao que se propõe. Roteiro direto, conciso e seco, baseado em autobiografia de Northup, onde aqui as liberdades criativas do roteirista John Ridley e do próprio Steve McQueen não interferem no absoluto poder seminal desta significativa obra/denúncia. Aqui uma proposição é buscar um caráter de abordagem realística positiva (apesar das liberdades de Fassbender em seu overacting enriquecedor, por exemplo) sobre o que significou a escravidão tendo a situação vivida por Northup funcionando como uma espécie de microcosmo do mosaico escravagista. Neste quesito o filme impressiona pela busca por um realismo seco sem melodrama, onde o horror da escravidão é mostrado de forma crua. Assemelhando-se nesses aspectos a tantos outros longas sobre conflitos outros, como já o fora mostrado o terror da guerra do Vietnã em Platoon, por exemplo, porém sem a tamanha violência deste. A semelhança aqui é mais por alguns aspectos, por assim dizer, semi-documentais.
Para uma fluência acertada deste grande roteiro a direção de McQueen teria de se comportar da mesma forma compactuando das já citadas secura e crueza. Assemelhando-se a um formato de documentário sem estilismos exacerbados, que cabem sim em filmes como Django de maneira eficiente por sinal. Exatamente por Django possuir outras características, possibilidades e direcionamentos, porém com similitudes críticas a elementos da famigerada escravidão americana, com uma troca de denúncia sarcástica para transposição clara de sentido e conjuntura escravagista (enaltecendo os 2 aqui).
O que achei clara foi a intenção de McQueen em criar uma atmosfera quase que insustentável, mais passível a concatenações e falhas humanas, e não tão somente vivida de carrascos mecanicistas. Uma busca pelo real que busque não chocar o espectador somente. A violência está lá como elemento pertencente a um determinado período e a sua ambiência. Buscando sempre um sentido não-anacrônico em nenhuma passagem. A opção aqui, em relação a este período, é sim afrontá-lo, trazê-lo ao debate, prover argumentações. Promover força de sentidos, trazer o sangue e discutir a preponderância do poder da libertação humana e sua importância de existir.
Elenco. Atuações soberbas em sua maioria, começando por Chiwetel Ejiofor, no difícil papel principal, onde o ele nos traz uma intensa força ao papel fugindo dos clichês de vitimação inoportuna, e sem nenhum tipo de caráter triunfalista. Todas as camadas, desde o desespero ao triunfo final, são perpassadas por Chiwetel de forma categoricamente natural e segura. Sem firulas como o filme já o é. Michael Fassbender mostra o já habitual talento, neste caso até para o overacting citado, que aqui funcionou bem, apesar do clima do filme parecer não permitir tais intentos, mas Fassbender não nos traz a caricatura em si, e sim, uma proximidade da mesma (por mais paradoxal que isso possa ser) com exageros humanos ao limite do aceitável. O vil Edwin Epps, explorada sua fraqueza de caráter onde impõe sua força ao preço de qualquer situação, principalmente sexual, e isso é demonstrado com muita garra e pavor. Excelente. Porém creio que a grande atuação do filme seja da queniana Lupita Nyong'o, em papel de escrava sexual extremamente difícil onde não se deixa em momento algum que transpareça um situacionismo farsesco por demais. Assustadora a sua cena rápida de tortura. E assim como em Solomon (ou até bem mais que ele) nenhum tipo de triunfalismo inútil. Excelente opção do diretor no trabalho com esta surpreendente atriz. Representante de alguns dos maiores valores escrotos do escravagismo.
Fotografia perfeita casando com o clima cru por vezes documental (novamente) do longa propõe-se a mostrar a saga de Northup sem triunfá-lo diretamente, apenas mostra-o como mais um que lutara pra sobreviver diante de tantas adversidades. Correta edição, excelente trabalho sonoro. Completam o serviço uma contida trilha sonora de Hans Zimmer, ao contrário de alguns temas seus mais ribombantes anteriores. Porém não lá muito original. Sempre lembranças da trilha do filme A Origem, também sua, aqui e ali.
Filme que gera uma gama de discussões acerca do tema e onde, por exemplo aqui no Brasil fomenta a discussão da situação da exploração sexual por sobre os escravos amenizada por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, onde o próprio tratava a situação de maneira bastante condescendente, onde é explicitado que as escravas simplesmente seduziriam o senhor em vários casos por exemplo, e mesmo que existam fatores de exploração sexual não seriam citados com espaço suficiente nesta obra. Cabe a discussão, sem destroçar anacronicamente a obra de Freyre, mas, sim, problematizá-la e compará-la ao que analisamos vários anos depois em 12 anos de Escravidão em sua exposição mais clara e, sim, realista destes fatos, comparadamente a obras anteriores como o próprio casa grande, refém de sua época. Não esqueçamos disso.
Em um país como o nosso em que outras discussões do tema transformam-se e constituem-se em outros braços das anteriores, como acerca de cotas raciais nas universidades que enchem bares e botecos pelo Brasil afora, este grande filme veio em boa hora para alimentar e enriquecer os mais diversos debates.
Nota 9
Por Ted Rafael Araujo Nogueira
15 minutos (15 minutes, 2001)
Força midiática, polícia investigativa, insanidade (?), cinema, televisão, jornalismo, assassinato, lei penal, código moral transtornado. Aqui são alguns dos temas utilizados por este grande filme policial do começo dos 2000, que, se tornaria, a meu ver, um grande expoente dos filmes do gênero. Pode parecer ingenuidade citar algumas palavras iniciais que adjetivem acerca das claras temáticas do longa como "cinema" e "assassinato" entre outras, porém a forma como o filme nos brinda com esses elementos levando-os ao escracho metalinguístico em forma de turbilhão imagético narrativo divertidíssimo fazem-se valer como citações logo de cara. Diretas. Assim como esta cria do cinema o faz.
Não há nada de tão novo assim no front em se alfinetar a televisão e o próprio cinema, a hollywood de outrora já se permitira a isso em seus anos de ouro por exemplo. Porém aqui há uma modernizada em tais elementos, onde expõe-se a cultura do exagero das massas que regozijam-se na violência por meio de programas reality shows sensacionalistas manipuladores (denominação óbvia, porém nunca envelhecida demais). Manipulação esta anexada e concatenada por uma dupla de estrangeiros que viram como lucrar sendo assassinos fingindo psicopatia diante do American Dream e seus devaneios políticos, culturais e sociais. Onde a selvageria midiática é predominantemente cínica em seus mais absurdos pormenores, e estas personas encontram nela formas de subjugarem leis e destinarem-se ao sucesso.
A história gira em torno dos emigrantes Emil Slovak (tcheco interpretado por Karel Roden) e Oleg Razgul (russo por Oleg Taktarov) que buscam encontrar um amigo que lhes deve dinheiro mediante um roubo passado. Como o amigo gasta o dinheiro Emil o mata e sua esposa e incendeia o apartamento. O crime começa a ser decifrado pelo investigador dos bombeiros Jordy Warsaw (Edward Burns) e pelo famoso (participante de um reality show policial) detetive Eddie Flemming (Robert De Niro). Os crimes de Emil vão num crescer e seu pensamento de conseguir vencer diante da fama sobrepujando o sistema enganando-o projeta-se cada vez mais alto.
A forma como Emil percebe a manipulação midiática é hilária, desde programas de fofoca e reconciliação amorosa ao estilo Sônia Abraão, à programas policiais biográficos que contam os crimes e vitórias de determinados criminosos que conseguiram burlar o sistema falseando uma inata loucura. A estranheza exposta por Emil, transforma-se em felicitação visto que o todo poderoso do capitalismo neo-liberal deixa para democracia profundos entraves jurídicos, que se permitem a coexistir e somar-se a vácuos morais. Isto é posto por todo o desencadeamento das ideias de Emil em que ele colhe diversos elementos para seu intento na própria cultura de massa americana, aprofundada em uma substanciação cultural escrota e controladoras das massas.
TV. Órgãos estatais. Favores? A televisão, e seus meios, controla largas parcelas de opinião crítica social da população, onde diversos órgãos estatais buscam sua aprovação. Mesmo que seja ela para um maior nível de fundos que os sustentem ou para que o trabalho de determinado órgão seja facilitado através da exposição da mídia em certos casos, e, é claro, para ambos, que haja um clamor do público para um aumento estrutural de um pseudo-arraigado bem estar social transposto aos populares. Visando assim, de maneira mais condescendente, um apoio aos órgãos citados. Logicamente também do próprio sistema político.
Sempre a manipulação sócio-cultural dos meios de comunicação é mostrada de maneira sarcasticamente responsável por determinadas idiossincrasias populares em quesitos de formadores de opinião. Opinião em que a política se mostraria pautada pela mídia, diante do que fora citado no parágrafo anterior nas preocupações de órgãos estatais com aparições positivas na mídia por exemplo.
Todos esses elementos são jogados na tela onde a ironia das falhas do sistema criminal americano sejam propiciadas pela mídia, num círculo vicioso que mostra-se sibilante em 3 grupos: sistema político, mídia (principalmente aqui a televisiva) e população telespectadora. Que necessitam e persigam uns aos outros onde o último é manipulado pelos dois primeiros, que trocam favores através, entre outras coisas, do ibope poderoso que pode ser gerado pelo terceiro grupo. Buscas por votos e por dinheiro. Pura manipulação viciada.
Tudo isso moldando-se em um caso policial extremamente bem conduzido pela direção de John Herzfeld, que modula sua dramaturgia a todo um mosaico político, social e cultural sempre mantendo um equilíbrio entre tudo que venha a acontecer. E com uma estrutura policial eficiente e não inovadora. O velho: descobriu/investigou/tragédia/fechou o caso. O grande lance aqui é ironizar o próprio gênero também, assim como todo o resto já o fora. Onde a morte de um personagem importante é refletida numa divertida piada metalinguística dita por Oleg Razgul: "Todo bom filme precisa de uma grande tragédia."
Um elenco afiado desfila personas por vezes bidimensionais, por vezes somente tresloucadas, e sempre cumprindo um papel na participação ao clima sarcástico perpetrado pelo longa. Robert De Niro aproveita a brincadeira com seu policial midiático Eddie Flemming onde o contraponto nervoso e explosivo de Edward Burns como Jordy, se encaixa de maneira bastante positiva. Há um destaque formidável a dupla de vilões, onde a sagacidade cruel de Emil se une ao divertido new film-maker de Oleg Razgul, que ironiza a sétima arte com sua câmera nervosa e com seu vício pelo cinema americano.
Como comentário técnico destaque a ótima e frenética edição, que consegue expor toda a gama de elementos diversificados sem causar uma grande confusão e mantendo-se certeira e direta na ação. Outros quesitos como fotografia, som e trilha sonora atuam discretamente sem contra-indicações.
Policial, diferente, político, pequeno louco, sacana e extremamente divertido. 15 minutos. Pra cada um que busque os seus na terra da liberdade.
Nota 9
Por Ted Rafael Araujo Nogueira
Não há nada de tão novo assim no front em se alfinetar a televisão e o próprio cinema, a hollywood de outrora já se permitira a isso em seus anos de ouro por exemplo. Porém aqui há uma modernizada em tais elementos, onde expõe-se a cultura do exagero das massas que regozijam-se na violência por meio de programas reality shows sensacionalistas manipuladores (denominação óbvia, porém nunca envelhecida demais). Manipulação esta anexada e concatenada por uma dupla de estrangeiros que viram como lucrar sendo assassinos fingindo psicopatia diante do American Dream e seus devaneios políticos, culturais e sociais. Onde a selvageria midiática é predominantemente cínica em seus mais absurdos pormenores, e estas personas encontram nela formas de subjugarem leis e destinarem-se ao sucesso.
A história gira em torno dos emigrantes Emil Slovak (tcheco interpretado por Karel Roden) e Oleg Razgul (russo por Oleg Taktarov) que buscam encontrar um amigo que lhes deve dinheiro mediante um roubo passado. Como o amigo gasta o dinheiro Emil o mata e sua esposa e incendeia o apartamento. O crime começa a ser decifrado pelo investigador dos bombeiros Jordy Warsaw (Edward Burns) e pelo famoso (participante de um reality show policial) detetive Eddie Flemming (Robert De Niro). Os crimes de Emil vão num crescer e seu pensamento de conseguir vencer diante da fama sobrepujando o sistema enganando-o projeta-se cada vez mais alto.
A forma como Emil percebe a manipulação midiática é hilária, desde programas de fofoca e reconciliação amorosa ao estilo Sônia Abraão, à programas policiais biográficos que contam os crimes e vitórias de determinados criminosos que conseguiram burlar o sistema falseando uma inata loucura. A estranheza exposta por Emil, transforma-se em felicitação visto que o todo poderoso do capitalismo neo-liberal deixa para democracia profundos entraves jurídicos, que se permitem a coexistir e somar-se a vácuos morais. Isto é posto por todo o desencadeamento das ideias de Emil em que ele colhe diversos elementos para seu intento na própria cultura de massa americana, aprofundada em uma substanciação cultural escrota e controladoras das massas.
TV. Órgãos estatais. Favores? A televisão, e seus meios, controla largas parcelas de opinião crítica social da população, onde diversos órgãos estatais buscam sua aprovação. Mesmo que seja ela para um maior nível de fundos que os sustentem ou para que o trabalho de determinado órgão seja facilitado através da exposição da mídia em certos casos, e, é claro, para ambos, que haja um clamor do público para um aumento estrutural de um pseudo-arraigado bem estar social transposto aos populares. Visando assim, de maneira mais condescendente, um apoio aos órgãos citados. Logicamente também do próprio sistema político.
Sempre a manipulação sócio-cultural dos meios de comunicação é mostrada de maneira sarcasticamente responsável por determinadas idiossincrasias populares em quesitos de formadores de opinião. Opinião em que a política se mostraria pautada pela mídia, diante do que fora citado no parágrafo anterior nas preocupações de órgãos estatais com aparições positivas na mídia por exemplo.
Todos esses elementos são jogados na tela onde a ironia das falhas do sistema criminal americano sejam propiciadas pela mídia, num círculo vicioso que mostra-se sibilante em 3 grupos: sistema político, mídia (principalmente aqui a televisiva) e população telespectadora. Que necessitam e persigam uns aos outros onde o último é manipulado pelos dois primeiros, que trocam favores através, entre outras coisas, do ibope poderoso que pode ser gerado pelo terceiro grupo. Buscas por votos e por dinheiro. Pura manipulação viciada.
Tudo isso moldando-se em um caso policial extremamente bem conduzido pela direção de John Herzfeld, que modula sua dramaturgia a todo um mosaico político, social e cultural sempre mantendo um equilíbrio entre tudo que venha a acontecer. E com uma estrutura policial eficiente e não inovadora. O velho: descobriu/investigou/tragédia/fechou o caso. O grande lance aqui é ironizar o próprio gênero também, assim como todo o resto já o fora. Onde a morte de um personagem importante é refletida numa divertida piada metalinguística dita por Oleg Razgul: "Todo bom filme precisa de uma grande tragédia."
Um elenco afiado desfila personas por vezes bidimensionais, por vezes somente tresloucadas, e sempre cumprindo um papel na participação ao clima sarcástico perpetrado pelo longa. Robert De Niro aproveita a brincadeira com seu policial midiático Eddie Flemming onde o contraponto nervoso e explosivo de Edward Burns como Jordy, se encaixa de maneira bastante positiva. Há um destaque formidável a dupla de vilões, onde a sagacidade cruel de Emil se une ao divertido new film-maker de Oleg Razgul, que ironiza a sétima arte com sua câmera nervosa e com seu vício pelo cinema americano.
Como comentário técnico destaque a ótima e frenética edição, que consegue expor toda a gama de elementos diversificados sem causar uma grande confusão e mantendo-se certeira e direta na ação. Outros quesitos como fotografia, som e trilha sonora atuam discretamente sem contra-indicações.
Policial, diferente, político, pequeno louco, sacana e extremamente divertido. 15 minutos. Pra cada um que busque os seus na terra da liberdade.
Nota 9
Por Ted Rafael Araujo Nogueira
Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013)
Nada de novo front. Vamos a alguns motivos para tal. Robôs construídos para uma luta contra alienígenas "godzilianos" onde a tecnologia (novamente) capitaneada pelos norte-americanos venha a salvar o mundo. Aqui jaz a sinopse. Até que se o longa por acaso possuísse uma boa direção, não abusasse de um amontoado de clichês e tivesse efeitos melhores (minimamente mais contundentes na visibilidade dos mesmos pelo menos), poderia ser um bom filme. Poderia.
Mais óbvio que este roteiro impossível (pelo menos muito difícil). O que houve aqui? Arremedos de personagens transpostos em tela em diversas composições de frases feitas e ditando justificativas batidas (caso existam e quando as mesmas ocorrem seriam: vingança, senso de dever inabalável) onde a força desmedida (e descerebrada) vence qualquer (por mais primitiva que seja) inteligência (pelo menos na saga dos Mercenários a farra humorística é explicitada desde o começo, por exemplo). Colocar russos e orientais como coadjuvantes mudos seria nada mais nada menos que um mero silenciador renitente por sobre aqueles que venham a reclamar da americanização dos heróis como o há em Armaggeddon (1998 - Michael Bay) por exemplo. Não deu certo. Aliás, pouca coisa realmente se salvara.
Há vários elementos mais específicos onde se primara pela inércia criativa ou mera incompetências que citá-los-ei. Como reconstruir muralhas enormes mesmo após os Kaijus as destruírem com uma certa facilidade? Isso seria um teste a inteligência do espectador? Além desses clichês (e talvez alguns outros esquecidos, porém quase esqueço do infantil cientista cômico) há pequenos erros que venham somente a somar a falta de esperteza (de bom senso pra dizer o mínimo) da equipe criativa. Como por exemplo, já perto do fim, um jaeger é erguido num vôo por um kaiju numa velocidade constante e que 3 tomadas depois o jaeger se desprende e cai a uma altura inimaginável visto o tempo que os 2 teriam subido. Erro de continuidade básico ou falta de boa vontade de minha parte? Além do fato que alguns jaegers (bastante pesados pra dizer pouco) seriam transportados por uns 3 ou 4 helicópteros. Grandes helicópteros, que beleza. Tanto em estrutura geral quanto em pequenos detalhes narrativos o filme peca primorosamente, onde tudo nos força a aceitar (não somente uma inverossimilhança) uma história acéfala e sem elementos que no mínimo a tornassem digna de empatia.
Referências negativas e positivas (minoria). Como algo de positivo, alguma pálida homenagem aos samurais japoneses vistos em filmes como 7 Samurais (1954 - Akira Kurosawa), Yojimbo (1961 - Akira Kurosawa), para citar alguns, no que tange há algumas atitudes em combate dos jaegers e numa forçada honradez de sacrifício do general unidimensional que morre heroicamente dentro de um clichê clássico já visto em Independence Day (1996 - Rolland Emerich) entre outros filmes. Homenagens que visam enaltecer antigos filmes (muitos desses até mais contemporâneos. Até séries como Power Rangers podem ser mencionadas) mas que permanecem como muletas frágeis de um roteiro preguiçoso que busca compor todo um caráter imagético catártico sobre o espectador diante da exibição de tudo, e que (onde) o consegue, consegue de maneira constrangedora e descartável deixando o expectador, por vezes, olhando ao relógio a contar o tempo para retirar-se desta experiência. Até a relação do soldado revoltado com a vida e com papai também existe. E o pai desse cidadão, porém, logo após a morte de seu filho o mesmo dispõe-se a se preocupar mais com outro soldado que ele nem conhece e quase esquece o filho morto, realmente a relação entre pai e filho não era boa. Pena. Assisti ao filme uma única vez e pretendo continuar assim, por isso minha crítica, por vezes, venha a visar mais elementos esparsos do que o próprio em si por achá-lo quase que inexistente no que seria minimamente necessário a padrões de qualidade que me presto a julgar.
Segue novamente o velho heroísmo idiotizante salvacionista de papelão (uma frase feita em homenagem ao filme) que permeia os discursos de peitos estufados onde a raça humana sempre prevalecerá e onde o American Dream nunca será desvanecido. Se a catarse for embasada no tédio e no farsesco terá dado certo.
Como já fora mencionado, o roteiro extremamente esquemático (simplista é um grande elogio caso eu o fizesse) poderia ser camuflado por uma boa direção, porém Guillermo Del Toro prima pela falta de originalidade (quem diria depois de seus bons e cultuados filmes) no (já) velho abuso de cortes em sua montagem (pra citar umas negativas) e (principalmente) da proximidade dos planos em cenas de batalhas onde quase nada é entendido como nos Transformers (2 - 2009 - e 3 - 2011 - principalmente. De novo o cinema de Michael Bay). Onde não conseguira em momento algum desviar as grandes falhas deste roteiro a uma direção minimamente correta ao menos. Este quesito compõe-se mais como outro elemento onde se parece transpor uma preguiça, que ao invés de uma (sonhada) busca por um visual repaginado (no mínimo) além de uma história (não que fosse crível) que causasse algum interesse, simplesmente mantém-se a mesmice cansativa.
Alguns efeitos se salvam com belas imagens dos jaegers e kaijus mas somente quando estão parados e visíveis , coisa que pouco acontece. Alguns planos de Hong Kong devem ser lembrados aqui e ali, mas é pouquíssimo para uma produção que prima demais para a parte técnica, onde nem na mesma se salva por completo. Como excelência vale-se somente pela trilha sonora original, bem feita e empolgante, sem ela o filme conseguiria ser pior do que já o é (o que é difícil, mas possível). A última qualidade seria o visual dos kaijus relembrando antigos filmes do Godzilla e outros monstrengos sessentistas, inicialmente fora esse caráter que viria a despertar minha curiosidade inicial acerca do filme, porém meus anseios caíram por terra por conta de tantos defeitos nas mais diversas áreas.
Enfim uma miscelânea desorganizada, onde acredito ser de uma boa vontade exacerbada uma busca por encontrar referências inteligentes e devaneios orientais ao que se experiencia, o que na verdade apenas transparecem elementos, dos mais fáceis e de mera ilustração temática, da série Power Rangers, filmes do Godzilla, Independence Day entre outros. Onde aqui é bem pior a tudo que se inspira. Até deu saudades do Godzilla de borracha (nem falo do primeiro que é um clássico sério, mas das continuações mais trashs mesmo). Parece mais um filme de encomenda para adolescentes do que uma obra autoral (o que, logicamente não é novidade e seria até esperado em âmbitos gerais). Voltem monstros de borracha.
Nota 3 (pra ser gente boa)
Por Ted Rafael Araujo Nogueira
Assinar:
Postagens (Atom)




